A Educação de Crianças e Adolescentes com Deficiência Múltipla – Parte 1

A Educação de Crianças e Adolescentes com Deficiência Múltipla – Parte 1

Por:  Volmir Mielczarski dos  Santos

(Parte 1 de 3)

 

O desafio de propor um espaço para a educação e para o tratamento de sujeitos com deficiência múltipla na FADEM foi inaugurador da própria instituição há 25 anos. Com o passar do tempo, a experiência educacional foi deixada de lado, prevalecendo o trabalho clínico que foi durante muitos anos o  único polo organizador do atendimento.

A equipe clínica, ao acompanhar durante esses anos seus pacientes em atendimento, mesmo notando alguns avanços em suas aquisições, muitas vezes constatava também que a extensão destas era problemática quando não havia de forma paralela um trabalho educacional. Neste aspecto, encontrávamos problemas: as crianças e os adolescentes acompanhados apresentavam dificuldades associadas às suas deficiências tão significativas que a entrada na escolarização muitas vezes fracassava, em outros casos se apresentava como algo distante, mesmo com as inovações proporcionadas pelas discussões recentes sobre educação inclusiva 3. Uma certa angústia tomava conta da equipe e também dos familiares: como o tempo ia passando e as oportunidades e experiências educacionais não aconteciam, o que fazer?

E foi com esta pergunta que um grupo de terapeutas e educadores se juntaram para levar adiante estas reflexões. Foram alguns meses de discussões sobre a educação, a inclusão e, como fio condutor deste encontro, a proposta de uma intervenção na FADEM na esfera da educação.

Depois de muitos encontros, resolvemos propor o seguinte: começar a realizar um atendimento educacional em grupo para adolescentes que já estavam há muito tempo na instituição, exclusivamente em atendimento clínico, e com algumas tentativas de escolarização fracassadas. Tínhamos algumas proposições: a modalidade de atendimento seria educacional, com uma educadora de referência na turma. Os jovens viriam duas vezes por semana por duas horas semanais. Para estes, seria a primeira experiência educacional em grupo da sua vida. Também, priorizaríamos ali a proposição de cenas educativas em que a aprendizagem não seria pautada por um currículo prévio, e, sim, a partir do momento e do percurso singular de cada adolescente.

Os efeitos foram muito interessantes e surpreendentemente rápidos. Para os alunos, participantes de atividades em que o compartilhamento de experiências era o mote organizador, o retorno era diário.  Para os clínicos, este retorno aparecia nos atendimentos em seus consultórios, desde o pequeno fragmento que avançava no atendimento clínico, tendo um desdobramento maior na cena educativa, como o efeito contrário, quando uma atividade realizada no âmbito educacional era retomada no atendimento clínico e ali poderia ter o desdobramento que lhe é concernente. E, evidentemente para os pais, que começaram a ver seus filhos não somente como objeto de cuidados e de tratamento, mas como pessoas que podem aprender novas coisas.

Ao avançar em nossa prática, com o passar do tempo, fomos vendo que neste ponto, sobre a aposta necessária da família para um sujeito se vincular a uma situação de aprendizagem e ali fazer alguma apropriação do que lhe é proposto, apareciam problemas. Neste sentido, recebíamos sujeitos com familiares que já haviam feito algumas tentativas de escolarização e, por estas terem sido frustradas, acabavam desanimando, tanto como familiares que nunca foram encorajados pelos profissionais anteriores a insistirem quanto à educação e à escolarização de seus filhos. Percebemos então a necessidade de operar sobre um ponto, na chegada dos familiares no Espaço Educativo, marcado pela seguinte pergunta: o que os familiares esperam sobre a aprendizagem de seu filho?

Ali foram surgindo questões que se relacionam sem dúvida com o desejo, presente ou ausente, de que seu filho aprenda algo. Mas o mais significante era perceber, nas histórias contadas, o quanto este desejo muitas vezes presente cedeu lugar a uma normatização do que não andava bem, e nestes casos, muitas vezes a criança e o adolescente com deficiências múltiplas têm muitas coisas a dever a um ideal de perfeição.

 

(Continua…)