A Educação de Crianças e Adolescentes com Deficiência Múltipla – Parte 2

A Educação de Crianças e Adolescentes com Deficiência Múltipla – Parte 2

Por: Volmir Mielczarski dos  Santos

(Parte 2 de 3)

 

Sabemos desde o texto de Freud Introdução ao Narcisismo que todos os pais ao conceberem seus filhos constituem uma imagem ideal, ou seja, esperam que a criança realize todos os anseios não realizados das suas próprias infâncias. Ao nascer uma criança com  deficiência e no momento em que as aquisições evolutivas esperadas e necessárias passam a não acontecer no período esperado, produz-se uma crise desencadeadora de um luto resultante da comparação entre a criança idealizada e aquela com tantas dificuldades à sua frente. Muitas vezes, os profissionais que acolhem os pais, ao contrário de ajudá-los a elaborar esse luto, e também por não saberem como fazê-lo, passam por  cima dessa dificuldade convidando os pais a tentarem compulsivamente reparar o que não está bem, deixando o crucial de lado.

Qual é afinal a nossa posição em relação a este ponto? Sabemos por nossa experiência que esta intenção normatizante ao contrário de ajudar o sujeito a avançar provoca um apagamento deste. Mannoni traz à tona esta reflexão sobre os efeitos de subjetivantes das técnicas de tratamento e educação, quando observa a maneira como suas abordagens procedem, e afirma que, no desejo de tratar os sintomas, acabam recusando o próprio sujeito, e desta maneira, agravando os sintomas, chegando mesmo a convertê-los em alienação. A autora desenvolve uma análise crítica que permite constituir a ideia de que o uso da técnica, na educação, pode produzir uma amarração prescritiva que aliena o sujeito das suas próprias produções. A nossa posição converge com a de Mannoni quando trabalhamos na direção contrária a esta alienação, de fato a combatendo, pois, para que uma aprendizagem tenha curso é preciso identificar no discurso dos pais por onde anda e andou o desejo sobre a aprendizagem de seu filho.

Neste caminho, encontramos lacunas que não são trabalhadas como falhas, mas como intervalo passível de construção de uma história que não deve se encerrar, como muitas vezes acontece, na descrição minuciosa das diferentes patologias da criança. Não é que não levemos em conta estas dificuldades, mas não são estas as mobilizadoras da aprendizagem, e, sim, a percepção da criança e do adolescente de que há em torno deles pessoas investindo e esperando e dando tempo para que suas aquisições aconteçam.

É lógico que, para sabermos como andam as coisas neste âmbito, também precisamos saber como tudo isto tem repercutido na criança. Toda criança aprende, desde que se disponham instrumentos para esta aprendizagem avançar. Nos casos de desconexão psíquica, classicamente caracterizados como autismo, e nos quadros de psicoses que podem acompanhar um quadro de deficiência múltipla, surgem situações em que nosso trabalho é mais difícil neste aspecto, pois ali uma condição psíquica problemática associada a outras deficiências coloca um impedimento estrutural na criança que deve ser considerado e muito trabalhado.

 

(Continua…)