A Educação de Crianças e Adolescentes com Deficiência Múltipla – Parte 3

A Educação de Crianças e Adolescentes com Deficiência Múltipla – Parte 3

Por:  Volmir Mielczarski dos  Santos

(Parte 3 de 3)

 

Quando percebemos que o desejo de aprender não está presente na criança ou no adolescente e isto tem relação com um transtorno psíquico, indicamos o atendimento clínico individual que para nós deve estar articulado ao atendimento educacional. Na FADEM, temos a facilidade de intervir educativamente em parceria com a equipe clínica, e isto facilita muito este processo.

Por outro lado, sabemos que o principal signo de desejo de aprender na criança é a curiosidade, e esta pode estar presente mesmo quando há uma extensão de limitações muito significativas. Aliás, estas limitações não são necessariamente um impedimento, mas podem passar a ser quando os pais e educadores as tomam como tal e não estimulam a criança a se interrogar sobre o mundo que a rodeia da maneira que lhe é possível fazer. Estas limitações podem impedir uma criança, que não  tem a aquisição da fala, de falar, todavia não a impede de comunicar ao outro por uma outra via aquilo que concerne aos seus interesses.

Muitas vezes, aos falarmos com os pais, estes nos trazem os interesses da criança e os seus como equivalentes. Isto denota uma dificuldade de supor que aquele sujeito à sua frente pode e precisa se diferenciar neste aspecto para avançar no seu percurso pela aprendizagem. Quando interrogamos os pais a respeito disso, surpreendentemente eles dizem que já sabiam disto, mas preferiram continuar a “resolver as coisas assim”.

O trabalho com a família, muitas vezes, parece não produzir resultados. No entanto, em um belo dia, surge um achado. Por exemplo, uma adolescente que nunca tinha ido ao cinema, pois não suportava ficar muito tempo longe dos pais, não só vê o filme, mas também fica muito tranquila durante a sua exibição. Na saída, os pais interrogam as educadoras, duvidando que sua filha tenha aceitado ficar assistindo a todo filme sem querer sair (neste caso, eles só aceitaram que ela fosse com o grupo se eles ficassem esperando no lado de fora). Nesta cena, algo significativo acontece, apesar da dificuldade dos familiares em reconhecerem o que de novo está em jogo: a possibilidade de realização de uma atividade com outro levou os pais a pensarem sobre a sua posição em relação ao que a filha supostamente pode fazer ou não.

Ao avançarmos nas nossas questões neste artigo, vai ficando claro o seguinte: colocar em jogo a aprendizagem para crianças e adolescentes dependerá sempre de uma intervenção junto à família, esta sem uma fórmula antecipada, mas com alguns componentes presentes em nosso trabalho no Espaço Educativo da FADEM e entendidos como cruciais para uma proposta educacional, ou seja, respeitar o desejo singular da criança e do adolescente que está em nosso atendimento.

Do início do trabalho até hoje, chegamos a uma estrutura composta por quatro turmas. Em cada uma delas, há duas educadoras coordenando as atividades e dois oficineiros: de capoeira e de expressão. Também agregamos, neste caminho, intervenções educacionais indivi- duais ou em duplas com a intenção de preparação para a entrada nos grupos. Mesmo não sendo uma intervenção que corresponda a uma vivência escolar, em alguns casos, trabalhamos por algum tempo com alunos que hoje já frequentam escolas da rede pública estadual e municipal.

Já andamos um bom caminho, é certo, mas ainda temos muito trabalho pela frente. Poderíamos nos reportar a uma série de outras questões, mas isto fica para uma outra oportunidade.