A invenção na clínica e nas instituições – Parte 1

A invenção na clínica e nas instituições – Parte 1

Por: Simone Moschen Rickes

(Parte 1 de 6)

Instituições

Acostumei-me tão bem a não ler que não leio sequer o que me aparece diante dos olhos por acaso. Não é fácil: ensinam-nos a ler desde criança, e pela vida afora a gente permanece escravo  de toda a escrita que nos jogam diante dos olhos. Talvez eu também tenha feito certo esforço nos primeiros tempos para aprender a não-ler, mas agora isso é natural para mim. O segredo é não evitar olhar as palavras escritas. Pelo contrário: é preciso observá-las intensamente, até que desapareçam. (CALVINO, 1999, p. 55 – grifo nosso)

Com esta revelação, Inério, personagem de Ítalo Calvino em Se um viajante numa noite de inverno, dirige-se a sua interlocutora. O encontro com essa passagem de Calvino pode nos atravessar como uma flecha: é preciso observar as palavras intensamente até que desapareçam . A ideia de que uma observação intensa pode fazer desaparecer a coisa é especialmente interessante para iniciar a travessia por esta temática que implica uma complexa costura: criação / clínica / instituição. Suas letras permitem indagar o efeito de apagamento comum às instituições que nos constituem. Estamos nelas tão mergulhados, tão intensamente tomados, que elas desaparecem a nossos olhos.  Talvez, só consigamos lê-las a uma certa distância.

Antes de avançarmos, vale situar uma precisão: tomaremos a palavra instituição na perspectiva da estabilização dos sentidos, pensando-a como um modo de ler e de produzir a vida que é compartilhado por um coletivo num determinado espaço e por um determinado tempo. É importante que não façamos equivaler instituições e organizações. Nas organizações, entidades que têm realidade jurídica, habitam uma série de instituições, uma série de regimes de verdade, de práticas e de ações legitimadas pelo compartilhamento de sentidos, de modos de produzir o mundo e o si mesmo. Tomamos as instituições como configurações discursivas que ganharam uma estabilidade de tal ordem que temos diante delas a ilusão de que emanam da realidade; de que espelham um mundo que, na verdade, constroem. Se as instituições se apresentam a nós de forma atemporal é, paradoxalmente, por meio da passagem do tempo, ou do incremento da distância, que podemos registrar a sua existência e a sua força. Olhamos para trás, para nossa história, e as instituições, como regimes discursivos estáveis, destacam-se, aos nossos olhos, como modos de produzir o mundo e legitimá-lo; modos que foram historicamente constituídos. Tais regimes são de tal ordem pregnantes que até mesmo as  chamadas pautas do desenvolvimento vão sofrendo deslocamentos ao longo do tempo, deslocamentos que são efeitos diretos das formas de se conduzir na vida. O próprio corpo é um construto que carrega os modos que um coletivo tem de significar o mundo.

Encontramo-nos sensibilizados frente às instituições que nos estruturam toda vez que nos deslocamos no espaço. A experiência do estrangeiro nos torna estrangeiros em nosso próprio território. Ao vivenciarmos os modos diversos que coletivos distintos possuem de significar a vida, a morte, o amor, a corte, a conjugalidade…, não temos como recuar diante da contingência das produções de sentido que, mais do que organizar a vida, estruturam-nos ao mesmo tempo que estabelecem os limites do experiencial.

(Continua…)