A Invenção na Clínica e nas Instituições – Parte 2

A Invenção na Clínica e nas Instituições – Parte 2

Por: Simone Moschen Rickes

(Parte 2 de 6)

É no campo da linguagem que as instituições ganham estabilidade e, paradoxalmente, é também nesse campo que se jogam as possibilidades de corte, ruptura, transgressão, e por que não, invenção; operações que se colocam como resistência ao instituído, mesmo que seja para dali adiante recompor a ilusória estabilidade dos sentidos. Mas avancemos mais devagar.

Lacan, no seminário que dedica especialmente ao estudo da constituição do eu em sua estreita relação com o simbólico, sustenta que as palavras estruturam a própria percepção. O mundo não nos chega de forma direta, ele não é nunca apreensível sem mediações. São justamente as mediações que permitem que uma sensação de realidade de- cante. Para Lacan, é pela nominação que o homem faz existir os objetos em uma certa consistência. Nas suas palavras “se  estivessem apenas em uma relação narcísica com o sujeito, os objetos não seriam percebidos senão de maneira instantânea. A palavra, a palavra que nomeia é o idêntico… O nome é o tempo do objeto. A nominação constitui um pacto, pelo qual dois sujeitos, ao mesmo tempo, concordam em reconhecer o mesmo objeto”.

É no campo das palavras que os objetos ganham permanência e consistência. Ganham, por vezes, uma estabilidade tal que nos parece que ela não lhes é conferida pelo nome que portam, mas por uma suposta realidade que carregariam consigo. A realidade, para os psicanalistas, existe como efeito da linguagem; a realidade inscreve-se por efeito das palavras que lhe conferem a sensação do idêntico, a permanência no tempo, a possibilidade de que se configure o Mesmo. A linguagem é o nosso denominador comum. Para Manguel, “a relação entre uma civilização e sua linguagem é simbiótica: certo tipo de sociedade dá origem a certo tipo de linguagem; por sua vez, essa sociedade dita  histórias que inspiram, moldam e mais tarde transmitem a imaginação e o pensamento daquela sociedade”. O mundo perceptivo, o pensar e mesmo a imaginação estão circunscritos, em suas possibilidades de acontecimento, ao compartilhamento da linguagem que enlaça um determinado grupo de indivíduos em uma filiação comum – uma filiação a uma instituição, uma filiação a uma cultura, uma filiação a uma teoria. Acontecer como sujeito em um certo coletivo implica ter limitadas pela linguagem as possibilidades de experienciar o mundo. Aqui, a noção matemática de limite pode nos ser útil. Limite, no sentido de que no intervalo entre zero e um há infinitos, porém limitados, números – dois, por exemplo, não faz parte do que é passível de ser encontrado nesse intervalo, neste limite.

Ressaltar o lugar do limite tem para nós especial importância, pois, se somos tecidos nas tramas da linguagem, isso não significa que possamos gerenciar o modo como se dá essa urdidura. Suas leis nos ultrapassam. Somos capturados em seu funcionamento, que não controlamos. Se a linguagem nos constitui, a nós e ao mundo, isto não implica que tenhamos que nos filiar a uma vertente idealista defendendo que podemos fazer desta realidade o que quisermos. Sabemos que querer não é poder. Sim, querer é importante, mas não determina o acontecimento daquilo que se almeja. Nas palavras de Lacan, “os idealistas da tradição filosófica […] no fim das contas eles não contestam [a realidade], eles a dominam. O idealismo consiste em dizer que somos  nós que damos a medida da realidade [… Esta] é uma posição reconfortante. A de Freud é coisa bem diferente. [Para ele] a realidade é precária”. É porque a realidade é precária, é porque o mundo resiste às significações que lhes imputamos, é porque a vida sempre vasa dos diques que as palavras impõem, que temos a necessidade de firmar instituições estáveis que nos protejam das surpresas do mundo.

(Continua…)