A Invenção na Clínica e nas Instituições – Parte 3

A Invenção na Clínica e nas Instituições – Parte 3

Por: Simone Moschen Rickes

(Parte 3 de 6)

As instituições emergem como modos de exorcizar os enigmas da vida. É em torno de um ponto de ignorância, fazendo borda àquilo que desconhecemos, que nos esforçamos por manter estável um saber constituído de forma compartilhada. Reunimo-nos, assim, em torno do vazio que nos interroga, procurando a companhia dos semelhantes para, juntos, tecer as bordas deste vazio; para juntos desenharmos os contornos que nos permitam não cair nele. Podemos dizer que as instituições são modos de defesa frente ao desamparo em que a precariedade da realidade nos lança.

A questão se coloca quando, nesse movimento de  defesa frente ao imponderável da vida, fazemos equivaler os modos de significar o mundo que foram historicamente construídos; quando fazemos equivaler os modos de significar o mundo ao próprio mundo que eles constroem, quando tomamos uma produção humana como sendo espelhamento da realidade que ela cria e não efeito do operar simbólico. Toda vez que nos empenhamos nesta direção, exorcizamos ao mesmo tempo a responsabilidade que temos frente ao mundo constituído e a possibilidade de invenção decorrente de tal responsabilização. Protegermo-nos dos enigmas da vida ao custo de matar a própria vida que pulsa de forma resistente às significações estáveis.

Interessante notar que aquilo que nos atemoriza e do que sentimos a necessidade de nos defender – a precariedade da realidade –, é nisso que encontramos, também, a possibilidade da invenção. É por que a consistência da realidade não é um a priori garantido, mas fruto de uma ilusória estabilização construída historicamente que a própria realidade pode se transformar, ser outra. A realidade pode se transformar toda vez que cultivamos a experiência de que as palavras não equivalem às coisas, o que só conseguimos fazer amparados no laço com o semelhante, em companhia de outros, igualmente concernidos pelos enigmas que tentamos transpor.

Então, se a precariedade da realidade a torna passível de transformação, de que transformação se trata? Inicialmente podemos situar que se trata de uma transformação submetida às leis da linguagem. Isso, porque, se é a linguagem que confere estabilidade à realidade, qualquer transformação na realidade estará submetida às leis que organizam a própria linguagem.



A linguagem e a invenção


Gabriela Cabassu,  num belíssimo artigo intitulado Palavras em torno do berço, retoma a sabedoria contida na história da Bela Adormecida. Como vimos tratando até então, as histórias que contamos servem para dizer quem podemos ser, servem para constituir um solo comum, donde emergem os sentidos compartilhados. Nas palavras de Manguel, a linguagem […]  não se limita a nomear, ela também confere existência à realidade: ela é um ato de evocação por meio de palavras e por meio daquelas versões dos acontecimentos reais que chamamos de histórias. […] As histórias são nossa memória, as bibliotecas são os depósitos dessa memória, e a leitura é o ofício por meio do qual podemos recriar essa memória, recitando-a e glossando-a, traduzindo-a para nossa experiência, permitindo-nos construir sobre os alicerces do que as gerações passadas quiseram preservar. […] ler é uma experiência de memória por meio da qual as histórias nos permitem desfrutar da experiência passada e alheia como se fosse a nossa própria.

No entendimento de Cabassu, a Bela Adormecida nos transmite um ensinamento sobre os desdobramentos possíveis para as palavras que nos acolhem: na história, os reis festejam a chegada da princesa Aurora. Convidam doze fadas do reino para que tragam suas bênçãos à pequena – esquecem-se, de propósito, de uma fada. O motivo é insólito: não tinham os talheres necessários para as treze fadas – já se compravam talheres às dúzias! Quando a última fada iria tomar a palavra para dedicar à princesa um dom, irrompe no salão a fada excluída. Furiosa e ressentida, ela lança sobre a pequena uma maldição: aos quinze anos espetará seu dedo num fuso e cairá em sono eterno. Diante de tal desígnio, os convidados se abatem em uma tristeza sem precedentes. Todos sabem que, uma vez que uma palavra tenha sido proferida, não há como apagá-la. A maldição está lançada e seguirá seus desdobramentos. Contudo, a décima segunda fada não havia se pronunciado e cabe a ela abrir uma inflexão em um destino tão funesto. Se ela não pode apagar a sina da Bela, pode ao menos introduzir uma diferença: não se trata de um sono de eterno, mas de um século de adormecimento que será despertado por um príncipe, vindo de um reino distante.

O conto da Bela nos ensina algo sobre os efeitos de uma herança. Não podemos nos desvencilhar das palavras que circundaram nosso berço; mas como se tratam de palavras, como a realidade se estrutura a partir delas, os efeitos de sentido que elas suscitam depende também das palavras que se agregam na sequência do dito.

(Continua…)