A Invenção na Clínica e nas Instituições – Parte 5

A Invenção na Clínica e nas Instituições – Parte 5

Por: Simone Moschen Rickes

(Parte 5 de 6)

O capítulo intitulado Desobjeto é particularmente precioso para pensar a atividade imaginativa presente nesse tempo-espaço zipado da infância. Esse tempo em que aprendemos a nos relacionar com os desobjetos que fazem parte do mundo, que aprendemos a construir desobjetos, que aprendemos a olhar o mundo e a nos autorizarmos a ver possibilidades não antecipadas nos saberes e nas nomeações construídos e consolidados – não antecipadas nas instituições. Um tempo em que nos ensaiamos no espaço da criação que a linguagem de que somos feitos franquia. Um tempo mágico, mas de uma magia que faz parte deste mundo e não de outros, e que, fazendo parte deste mundo, de nosso mundo de linguagem, torna possível construir outros mundos.

Diz Manoel de Barros:
O menino que era esquerdo viu no meio do quintal um pente. O pente estava próximo de não ser mais um pente. Estaria  mais perto de ser uma folha dentada. Dentada um tanto que já havia se incluído no chão que nem uma pedra, um caramujo, um sapo. Era alguma coisa nova o pente. O chão teria comido logo um pouco de seus dentes. Camadas de areia e formigas roeram seu organismo. Se é que um pente tem organismo. (…) Acho que os bichos do lugar mijavam muito naquele desobjeto. O fato é que o pente perdera a sua personalidade. Estava encostado às raízes de uma árvore e não servia mais nem para pentear macaco. O menino que era esquerdo e tinha cacoete para poeta, justamente ele enxergara o pente naquele estado terminal. E o menino deu para imaginar que o pente, naquele estado, já estaria incorporado à natureza como um rio, um osso, um lagarto.

No quintal onde os dentes do chão comem os dentes do pente, onde bichos mijam em desobjetos, onde um pente tem organismo, floresce a capacidade de se relacionar com o mundo sem a necessária sustentação dos objetos que se propõe a não ser nada além daquilo que usamos dizer que são. No quintal de uma infância, onde o menino esquerdo vê o mundo pelo avesso e tem cacoete de poeta, desponta a possibilidade tão contrária a nossos tempos de criar a partir dos restos, de apanhar desperdícios e alçá-los a dignidade das coisas mais preciosas. No território onde os restos são potência para uma criação, o mercado dos objetos perde parte de sua necessariedade, e nisso talvez resida a potência subversiva do brincar.

O tempo do brincar é o tempo do investimento desejante nos objetos que torna a pedra do quintal a maior pedra do mundo. É o tempo de dignificar os restos arruinados, tomando-os como parte indispensável de uma engenhoca que, apostamos, mudará o mundo. Aprendemos a necessariedade do inútil brincando. Sobre a utilidade do inútil nos fala Hanna Arendt:

Entre as coisas que emprestam ao artifício humano a estabilidade sem a qual ele jamais poderia ser um lugar seguro para os homens, há uma quantidade de objetos estritamente sem utilidade (…). É como se a estabilidade humana transparecesse na permanência da arte, de sorte que certo pressentimento da imortalidade – não a imortalidade  da alma ou da vida, mas de algo imortal feito por mãos mortais – adquire presença tangível para fulgurar e ser visto, soar e ser escutado, escrever e ser lido.

Estranhamente, o que confere consistência e estabilidade ao artifício humano, ao mundo e a nós mesmos, é uma série de desobjetos; desobjetos produzidos por obra de um investimento amoroso que captura a coisa, desloca-a de sua suposta realidade e a faz viver no mundo dos símbolos, no mundo da linguagem. Ao brincar, somos iniciados na arte da construção dos desobjetos que nos humanizam.

(Continua…)