A Invenção na Clínica e nas Instituições – Parte 4

A Invenção na Clínica e nas Instituições – Parte 4

Por: Simone Moschen Rickes

(Parte 4 de 6)

Se falo, “uma grande pena, mas não posso ir”, ou se digo, “uma grande pena, mas iremos recorrer”, o significado de pena desliza de lástima para penalidade, por obra daquilo que se coloca na sequência do dizer. Aquilo que se inscreve na sequência, retroage sobre as primeiras palavras, deslocando seu sentido.

Desejamos, na clínica, vestir as roupas da décima segunda fada para produzir uma palavra, oferecer uma leitura, que não apague a história do sujeito, mas que lhe permita desfrutar de uma abertura a novos sentidos, de uma abertura a novas formas de compor a realidade.

Freud, ao longo de sua obra, chama-nos a atenção para o fato de que a construção da memória responde a uma estranha temporalidade. Numa famosa carta, ele escreve a Fliess sobre aquilo que foi, desde o início de seus trabalhos, um dos enigmas que tentou desvendar: como se constrói a memória? Segundo ele, “o material presente sob a forma  de traços mnêmicos fica sujeito, de tempos em tempos, a um rearranjo, de acordo com as novas circunstâncias – a uma retranscrição”. O passar do tempo abre a possibilidade de que os mesmos traços sejam rearranjados em cadeias, cuja trama da rede se altera. Sequenciar os mesmos elementos de forma diversa implica produzir novos sentidos. Mesmos traços percorridos de forma diferente deixam rastros, cujo desenho não se equivale.

Mas não é somente por conta de um percurso distinto pelos mesmos pontos que podemos traçar os contornos de uma diferença. A linguagem comporta sempre uma interrogação pelo lugar, seja a posição em que se situam as palavras na sequência em que estão tomadas, seja o lugar desde onde elas são ditas. Posição na cadeia discursiva, lugar de enunciação desta cadeia, respectivamente. Assim, dizer as mesmas coisas de um outro lugar também pode implicar um sentido completamente outro. O lugar desde onde se fala, as circunstâncias que circunscrevem o dito, participa dos efeitos de sentido que dele derivam.

Na clínica, especialmente a que se ocupa da infância e dos transtornos do desenvolvimento, se trata, de algum modo, de se deslocar para ler outra coisa. Tomar outra posição para receber o mesmo dito em outro lugar e, com isso, deslocar a suposição do lugar de enunciação. O mesmo dito, o mesmo gesto, lido em outra cadeia, acompanhado por outras palavras, pode produzir efeitos de sentido completamente distintos e, com isso, construir o mundo e o falante em outro lugar.



A clínica


Experienciamos a grande diferença que um pequeno deslocamento pode operar quando somos capturados neste exercício tão próprio à infância, mas que certamente se estende além dela, que é o brincar. Freud, na década de 20, escreve um dos poucos textos em que aborda diretamente o brincar. Interessante que ele inclui a reflexão sobre o brincar em um artigo dedicado a refletir sobre as condições de elaboração de um trauma.

Para Freud, todo brincar simbólico carrega três elementos: a repetição, a transposição de uma posição passiva a uma posição ativa frente ao outro, e o vir-a-ser que desenha um horizonte identificatório para aquele que brinca. Sabemos que a criança nasce nas palavras dos adultos que lhe são próximos. É por estes adultos que ela  é significada, acontecendo como ser humano a partir dos sentidos que lhe são atribuídos.

Podemos dizer que a criança nasce como sujeito assujeitado às nomeações que lhe vêm do Outro. Nasce como sujeito numa posição passiva frente a este Outro. O passaporte que ela vai cunhar para uma posição ativa, para o lugar de sujeito de uma ação, para a condição de falar em nome próprio, é elaborado com o material que lhe chega do brincar. É o brincar que vai armar a ponte do lugar de assujeitamento ao lugar de sujeito. Por isso, o brincar é coisa tão séria para a criança. Por isso, é tão preocupante quando uma criança não brinca, pois é como se ela tivesse aberto mão, ou não estivesse podendo dispor dos instrumentos pelos quais ela pode armar uma posição ao mesmo tempo enlaçada e diferenciada frente aos outros que lhe apresentaram o mundo.

Brincar é brincar de ser grande numa conjugação absolutamente interessante da experiência do tempo: agora eu era… Neste tempo mágico, onde a linearidade está suspensa, florescem as condições de criação. Manoel de Barros no belíssimo livro Memórias Inventadas , – quais não são? – nos fala desse tempo e de sua relação com o brincar. O início do livro é absolutamente intrigante: “tudo que não invento é falso”, inicia o poeta.

(Continua…)