A Invenção na Clínica e nas Instituições – Parte 6

A Invenção na Clínica e nas Instituições – Parte 6

Por: Simone Moschen Rickes

(Parte 6 de 6)

Invenção na clínica e na instituição

Almejamos, na clínica, ocupar o lugar da décima segunda fada, capaz de transformar um pente carcomido num valioso desobjeto. Almejamos, na clínica, oferecer uma leitura que possa deslocar o sentido cristalizado de um sintoma e descobrir em sua repetição o embrião de um estilo. Almejamos, na clínica, ao contrário de Inério, personagem  de Calvino, encontrar a distância que nos permita ler outra coisa, ou mesmo, quando leitura alguma foi possível, ler algo, apostar na presença de um texto.

O que almejamos na clínica é, estranhamente, explodir a instituição dos sentidos estáveis e abrir caminho às significações futuras; é colocarmo-nos na contramão do instituído para abrir espaço a novas leituras. Como pensar, então, em invenção na clínica e na instituição?

A clínica é avessa à instituição, a instituição é avessa à clínica; mas fazemos clínica na instituição – seja ela a entidade civil que nos abriga, seja ela o conjunto de enunciados da teoria que sustenta nossa prática. Chegamos, então, no ponto em que o que está em causa é transpor as dicotomias sem suspender as tensões. Não se trata de uma exclusão: ou o novo da clínica, ou o mesmo da instituição. Trata-se de fazer no espaço aberto pela tensão entre esses polos. Trata-se de acolher esta tensão, este intervalo, como o lugar onde algo diverso pode surgir, algo que não se conjuga no puro fluxo da sucessão de novidades, sem amarração alguma; nem na detenção paralisante de uma estabilização dos sentidos que tende à cristalização. De alguma forma, e sabemos disso quando nos dedicamos a pensar no advento do sujeito,  o novo só emerge se estiver em relação ao antigo; o sujeito só acontece se puder encontrar seu lugar na tradição que o sustenta e se esta tradição tolerar a diferença que a emergência do sujeito representa para a estabilidade da rede discursiva que a compõe.

Assim, toda instituição, para se dizer clínica, precisa suportar expor o buraco em torno do qual ela se organiza. Precisa suportar não se totalizar em um saber capaz de responder a todos os impasses. Precisa suportar que a pergunta recaia sobre ela, sobre seus modos de funcionamento, sobre suas práticas legitimadas, sobre seus regimes de verdade. Precisa suportar a falta que lhe é constitutiva, sob pena de fomentar a cegueira em relação aos singulares modos de existência. A clínica, por sua vez, para se dizer clínica, precisa se fazer em relação às instituições, aos saberes compartilhados e estabilizados na história do pensamento. Precisa se fazer numa filiação teórica, sob pena de se tornar um exercício narcísico e perverso daquele que demandaria ser chamado de terapeuta.

Clínica e instituição se encontram em tensão intransponível. Se não há tensão, não se está diante de uma instituição dita clínica. O desafio é construirmos instituições que carreguem em seu seio o germe de sua própria transformação, é construirmos uma clínica filiada a uma tradição capaz de abrir lugar ao novo. A suspensão da pulsação entre o mesmo da instituição e o novo da clínica nos transformaria no personagem de Calvino que, por habitar um mundo sem intervalos, por estar em contínua exposição às palavras, já não é mais capaz de lê-las. Inérios, seríamos cegos para as formas da vida que esperam uma leitura para vir-a-ser. O que autorizaria, então, que fôssemos denominados de clínicos?