Instituição como efeito da criação na cena clínica – Parte 1

Instituição como efeito da criação na cena clínica – Parte 1

Por: Luciana Leiria Loureiro

 

Gostaria de ressaltar que, estando na coordenação clínica da FADEM, tenho a oportunidade de conhecer os casos clínicos atendidos mais de perto e a clínica construída por cada um de meus colegas. Por isso, as palavras que seguem são banhadas nesta experiência e no que aprendo com cada um deles.

A maioria das crianças atendidas na FADEM tem deficiência múltipla ou atrasos importantes no desenvolvimento, o que, na prática, faz com que recebam atendimento de profissionais de áreas diferentes e,  às vezes, até em instituições diferentes.

Diante deste panorama, não é raro nos depararmos com pais que, quando chegam à instituição, têm dificuldade em contar a história de seus filhos. Sua fala está mais centrada em seus diagnósticos e, por consequência, mostram-se excessivamente preocupados com os possíveis déficits que suas crianças venham a ter, o que acaba por ter uma função de subjetivante sobre elas. Esteban Levin refere que, nestes casos, “risco latente para a criança seria de que ela, identificando-se com sua deficiência, faça da deficiência um traço que a nomeasse”.

Um dos conceitos transdisciplinares norteadores de nossa prática é de supor cada bebê ou criança que conhecemos como um sujeito, por maior que seja o por maior que sejam os obstáculos que ali impeçam os pais de se relacionarem com este filho. Por isso, desde a chegada e durante todo o tempo de permanência na instituição, buscamos acolher pais e filhos de  uma outra forma, possibilitando espaços de fala para que possam (des)construir o discurso “técnico” em que muitas vezes estão imersos e que acaba tendo como sequela o enfraquecimento das funções materna e paterna. Assim podemos auxiliá-los a elaborar ou até a fazer um luto desta fratura que se abre entre o filho sonhado e aquele com o qual se depararam na maternidade.

A partir disso, é possível abrir brechas para que possam (re)construir uma outra narrativa em relação a este filho. Isso pode significar algumas vezes ajudá-los, por exemplo, a lembrarem por que queriam ter filhos; que aquela risada alta que a filha dá no supermercado não é pura estereotipia e, sim, muito parecida com  as gargalhadas do pai; ou que o andar rápido do filho adolescente e deficiente visual na verdade é idêntico ao do pai que sempre sai de braços dados com ele. Enfim, possibilita que consigam olhar que os filhos carregam também as marcas de uma herança familiar/simbólica em seu corpo.

Isso é fundamental para que a criança seja inserida na linguagem e assim compreendida como um sujeito com tudo que isto implica: seu corpo, sua história de vida, suas potencialidades e seus desejos. É em torno deste posicionamento ético que construímos as intervenções e, por consequência, a instituição.

Se, do contrário, o tratamento for pensado somente a partir da patologia e de forma desconectada dos sujeitos atendidos, tratando, por exemplo,  da Síndrome de West, e não do João, filho do Mauro, que adora carros como o pai, que é professor na autoescola. Ou ainda da Síndrome de Lesch-nyhan, para a qual a literatura propõe a necessidade da retirada dos dentes permanentes, pois a criança se morde gravemente, e não do Ricardo que está encantado pelas letras e pedindo espaço para falar da angústia que seu corpo lhe provoca. Não estaria a instituição, neste caso, com seu saber totalizante, colocando estes sujeitos em uma posição fragmentada ou de alienação? Afinal, como propõe Benjamim, quando a técnica se sobrepõe ao homem, o resultado é a pobreza da experiência que o impele a seguir.

(Continua…)