Instituição como efeito da criação na cena clínica – Parte 2

Instituição como efeito da criação na cena clínica – Parte 2

Por:  Luciana Leiria Loureiro

 

Alfredo Jerusalinky refere que uma instituição seria nada mais que um grupo de pessoas ao redor de um buraco, de um ponto de ignorância. Afirma ainda que, ao estarem reunidas desta forma, se sentiriam convocadas a construir uma borda ao redor daquilo que ignoram e que, por isso mesmo, interroga, angústia. O problema nas institui- ções seria quando, na práxis, vários discursos não pudessem operar e tivessem de ser a mesma coisa para todos, tentando dar conta deste vazio.

Como a psicanálise nos ensina, é justamente a partir de um curativo no vazio que o sujeito em análise tem condições de produzir uma outra forma de subjetivação que lhe permita uma nova relação com o seu desejo. Assim também acontece com as instituições.

Fazer uma clínica construindo bordas em torno de um buraco, de um vazio, de forma que vários saberes operem e onde a singularidade seja considerada com crianças com deficiência ou transtornos do desenvolvimento, é possível a partir do trabalho de uma equipe interdisciplinar. Isso não significa fazer alusão a uma referência estanque, pois não se trata de um modelo de trabalho que venha de fora e se implante. Se assim fosse, novamente se cairia na tentativa de tamponar este vazio. Significa, sim, de uma prática que está sempre se (re)inventando e que se dá entre algo aqui dentro e algo lá fora, uma prática que implica esburacar as certezas das disciplinas, necessitando que os terapeutas consigam se colocar em posição de quem tem algo a aprender com o outro, para, a partir desta interlocução e cada um carregando as marcas de suas especificidade, construírem sua clínica

No dia-a-dia, percebe-se que cada intervenção tecida na relação transferencial é única. Não há como generalizar um procedimento. Cada profissional tem seu estilo de intervir. Ainda que seja a mesma criança, com cada terapeuta se dá uma relação diferente, com cada um será criada uma cena clínica distinta. E é neste movimento que os pacientes nos sinalizam, a partir de sua demanda, por onde se dará a direção do tratamento de cada um e consequentemente que dispositivos clínicos a instituição tem de criar.

Certamente esta posição de abertura traz uma série de complexidades para nosso trabalho. Mas trata-se de uma atitude essencial para que algo de novo possa se inaugurar, tanto em relação à posição subjetiva dos sujeitos atendidos quanto em relação à própria instituição.

Para as instituições que se ocupam de sujeitos em constituição, a questão de abrir espaços para fundar um lugar é essencial, pois, como vimos até aqui, é disso que muitas vezes se trata o trabalho. Em muitos casos, talvez seja na cena clínica mesmo para muitas crianças atendidas que esse processo de constituição se dá, pois é ali em seus atendimentos que encontram pela primeira vez um Outro 3 com um olhar desejante que lhes propõe uma imagem em que se ancorar, que não a da patologia.

Na constituição do eu, o processo de criação de um lugar imaginário de unidade inicia nos primeiros meses de vida. Acontece no que Winnicott nomeia de espaço potencial. Este se refere a uma terceira área, para a qual contribuem tanto o mundo interno quanto o externo do bebê, espaço onde são feitas as primeiras inscrições subjetivas. Sua extensão é variável. Se não houver espaço para experimentação, para brincadeira, o bebê pode não viver este espaço no sentido concreto. Pois tal espaço vai depender, segundo o autor, da extensão propiciada pela mãe ou por quem se ocupa da criança para a experiência cultural advir, para desenvolver.

A palavra cultura é empregada neste texto conforme a proposição de Winnicott, pensando na tradição herdada, “para qual indivíduos e grupos podem contribuir, e do qual todos nós podemos fruir, se tivermos um lugar para guardar o que encontramos”. Conforme Kaës, esta é condição para a existência do espaço potencial. É a partir disso que o sujeito pode estabelecer uma continuidade entre a área transicional e a cultural. Assim cada uma destas áreas pode coexistir sem conflito, o que já estava lá, a herança e o que está por vir, ou seja, a criação.

Para que tal processo ocorra e produza os efeitos propostos sobre o sujeito, é fundamental, ainda segundo Kaës, que o espaço potencial não perca sua condição de “intermediário”. Esta categoria de “intermediário” aparece com toda sua potência a partir do momento em que se articulam espaço intrapsíquico e espaço intersubjetivo, social e cultural.

Pode-se pensar então algumas instituições que operam, para muitos de seus pacientes, como espaço potencial, ou seja, caro lugar de ensaios que pode possibilitar a saída dos sujeitos de uma posição de alienação, favorecendo, assim, sua inserção na cultura de forma mais autônoma. Mas, para que isto seja possibilitado, é condição que elas se coloquem a partir desta posição de “lugar intermediário” e, assim, favoreçam aos sujeitos atendidos e suas famílias espaços para criação de novas potências de vida.

Para finalizar, fica uma questão.

Em que lugar se colocam algumas instituições, quando nos depararmos com atendimentos que começam com bebês e vão desenrolando novas formas de trabalho até estes mesmos sujeitos ficarem idosos? Não estariam elas, ao tentar dar conta de um vazio, como vimos anteriormente, referindo os sujeitos atendidos a outro discurso único, não o da patologia ou o materno, mas ao institucional?

Como o sujeito estabeleceria um laço entre o que foi tecido na cena clínica e a cultura? Que efeitos teriam sobre a constituição psíquica dos sujeitos atendidos?

Afinal, como nos lembra Winniccot, “tal como o bebê com a mãe, o paciente não pode tornar-se autônomo, exceto em conjunção com a boa vontade do analista em deixá-lo partir”.